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USINAGEM

RPM não é velocidade de corte: o erro que queima ferramenta e estraga o acabamento

ALC · Engenharia de Processos

Um cenário comum de chão de fábrica: o operador termina um lote de peças de 20 mm de diâmetro, troca para peças de 100 mm e mantém a rotação do programa anterior. A máquina roda e a peça sai, mas a ferramenta passa a durar bem menos e o cavaco muda de cor. Nada no programa está "errado". O problema é que o parâmetro que importa para a ferramenta não é o RPM.

O RPM diz quantas voltas o eixo dá por minuto. Quem sente o trabalho na aresta de corte é outra grandeza: a velocidade de corte (Vc), a velocidade com que o material passa pela aresta, medida em metros por minuto.

A mesma rotação, velocidades muito diferentes

A velocidade de corte depende da rotação e do diâmetro. Com 1000 rpm:

É a mesma rotação, com uma velocidade cinco vezes maior na aresta. Para a ferramenta, são condições de trabalho completamente diferentes.

As duas fórmulas que resolvem isso

Vc = π × D × n / 1000
n  = 1000 × Vc / (π × D)

De onde vem a Vc? Do catálogo do fabricante da ferramenta. Ela depende do material da peça, do material e do revestimento da ferramenta e da refrigeração. Tabelas genéricas servem de ponto de partida, mas a referência é o catálogo da ferramenta que você está usando.

Exemplos passo a passo

Os valores de Vc e de avanço abaixo são hipotéticos, só para mostrar o cálculo. Use sempre os recomendados para a sua combinação de material e ferramenta.

Torneamento. Peça de D = 50 mm, com Vc recomendada de 200 m/min:

n = 1000 × 200 / (π × 50)
n ≈ 1273 rpm

Fresamento. Fresa de D = 20 mm, com Vc recomendada de 120 m/min:

n = 1000 × 120 / (π × 20)
n ≈ 1910 rpm

Com a rotação definida, o avanço da mesa vem de:

Vf = fz × z × n
Vf = 0,1 × 4 × 1910
Vf ≈ 764 mm/min

Aqui, Vf é o avanço em mm/min, fz é o avanço por dente (também vem do catálogo) e z é o número de dentes da fresa.

O que a ferramenta e a peça estão dizendo

O que você vêPossível causaO que testar
Desgaste rápido da aresta, cavaco azulado ou queimado (em aço) Vc alta demais, com calor excessivo na aresta Reduzir a rotação em passos pequenos e conferir a Vc do catálogo
Material grudado na aresta (aresta postiça) e acabamento rugoso Vc baixa demais, comum em materiais dúcteis como alumínio e aço de baixo carbono Aumentar a Vc e conferir a refrigeração e a geometria da ferramenta
Lascamento ou quebra da aresta Avanço alto demais, ou aresta já muito desgastada Reduzir o avanço, verificar a fixação e trocar a aresta
Vibração (chatter) e marcas onduladas na superfície Combinação de rotação, balanço da ferramenta e rigidez do conjunto Reduzir o balanço, melhorar a fixação e variar a rotação
Ferramenta se desgastando sem cortar bem, em inox Avanço baixo demais: a aresta atrita e encrua o material em vez de cortar Aumentar o avanço dentro da faixa recomendada

A tabela é um guia de diagnóstico, não uma sentença. Muitas causas se somam (refrigeração, fixação, ferramenta inadequada). Mude um parâmetro por vez, para saber o que realmente resolveu.

No torno CNC: por que a rotação muda sozinha

No faceamento, a ferramenta vai da borda até o centro da peça. Com rotação fixa, a Vc cai conforme o diâmetro diminui. Com 1273 rpm, o diâmetro de 50 mm dá 200 m/min, o de 10 mm dá 40 m/min e o de 2 mm dá só 8 m/min.

Por isso os tornos CNC têm o modo de velocidade de corte constante (G96): você programa a Vc e o comando recalcula a rotação a cada diâmetro. O modo de rotação fixa é o G97.

O cuidado é que, em G96, a rotação sobe sem parar quando o diâmetro diminui. Para manter 200 m/min em 10 mm, seriam cerca de 6.366 rpm, e em 2 mm, cerca de 31.800 rpm, muito além do que a máquina e a placa suportam. Por isso o programa precisa limitar a rotação máxima (em comandos do tipo Fanuc, geralmente com G50 S ou G92 S, conforme o sistema de códigos). Confira no manual da sua máquina e respeite também a rotação máxima da placa e do dispositivo de fixação.

Checklist antes de mexer no programa

  1. Confirme o material da peça e a ferramenta (classe e revestimento).
  2. Pegue a Vc e o avanço recomendados no catálogo do fabricante.
  3. Calcule o RPM com o diâmetro real em que a ferramenta está cortando.
  4. Confira se a rotação cabe na máquina, na placa e na fixação da peça.
  5. Rode, observe o cavaco, o ruído e o desgaste da aresta, e ajuste um parâmetro por vez.

E se a ferramenta quebrar de novo? Quando o mesmo sintoma volta, vale parar de ajustar parâmetro no escuro: registre o problema, investigue a causa raiz e use o FMEA do processo para decidir o que prevenir. Veja por que usar FMEA.

No próximo conteúdo, vamos transformar essas fórmulas numa calculadora de RPM, direto no navegador, e falar de outro problema clássico: por que a peça sai fora de tolerância.